domingo, 24 de março de 2013

Como prometido: O primeiro capitulo de Valentina e o jardim das orquídeas negras!




VALENTINA E O JARDIM DE ORQUÍDEAS NEGRAS












“Do alto da colina eu podia ver, quilômetros e mais quilômetros cobertos por orquídeas negras, as mais belas flores que já havia visto em minha vida. No meio do jardim de orquídeas havia um imenso monte, do que me pareciam diamantes ao olhar de longe. Desci a colina me aproximei do outeiro e percebi que não eram diamantes, encostei minha mão, parecia pedra solida e no mesmo instante o monte se mexeu, me jogando longe ao abrir suas imensas asas...”.










Capitulo 1

Aqui estou eu, indo encontrar Vitor, meu namorado, tenho certeza que ele ira terminar comigo hoje, ele tem agido de um jeito estranho a mais ou menos um mês, e ontem ele me ligou dizendo que precisava se encontrar hoje comigo no Cabeças e corpos, o bar onde nos conhecemos.
Nesse exato momento, Alice, Cecilia e Maria Clara, as meninas que dividem o quarto comigo, me dão cobertura, para que ninguém descubra que eu sai da Escola para meninas, a escola onde estudo.
Vitor e eu já estamos nos vendo a mais ou menos um ano, mais ele não gosta muito de só me ver poucas horas algumas vezes na semana, eu não posso me arriscar a sair todo dia, pois existe um horário chamado Apagar das luzes, onde todas nos somos obrigadas a nos retirar para nossos quarto. Assim que eu escutei o toque de recolher, todas as luzes que ainda estavam acessas se apagaram, desci pelas escadas já que todos usavam o elevador, tentando fazer o mínimo possível de barulho, consegui sair do prédio sem ser notada, abri o portão principal, e estou livre finalmente.
O vento soprando meu cabelo castanho-claro e cacheado para cima, enquanto meu vestido estava bem preso ao corpo pelo, sobretudo roxo abotoado e bem apertado pelo cinto, meus tênis que um dia foram pretos, agora surrados e desbotados, se movimentando em uma velocidade enorme.
Eu não deveria ter a chave, mais cada dia alguém tem que buscar pão, leite e frutas para o café da manha antes que as outras acordem, e numa das vezes que eu tive que ir, eu tive uma ótima ideia, e fiz uma copia das chaves.
 Depois de atravessar a praça principal, já conseguia ver Vitor, me esperando em pé na frente do bar, com um sorriso meio forçado, usava um jeans surrado, uma camisa verde que combina com os meus lindos olhos e uma blusa de moletom de frio preta, os cabelos loiros arrepiados pelo vento.
Eu cheguei e o beijei na boca, certa de que esse seria nosso ultimo beijo, tive que me aproveitar um pouquinho.
- já reservei uma mesa para nós.
Disse ele ainda sustentando o sorriso forçado. Agora só me restava aproveitar a bebida e esperar pelo golpe de misericórdia.
- então o que e que você tem para me contar?
Ele simplesmente não conseguia olhar nos meus olhos, e eu sabia que era agora ou nunca, se ele não terminasse comigo agora, não faria nunca mais. Ele olhava diretamente para minhas mãos enquanto falava, e eu comecei a perceber que isso tudo era pior para ele do que para mim. Ele parecia bastante enjoado, como se fosse vomitar a qualquer momento.
- eu vou buscar uma bebida no bar o que você vai querer?
Eu perguntei, abrindo meu sorriso mais confiante, mais ele parecia não estar me ouvindo.
- espera...
Ele disse, segurando meu braço. Nesse momento ele já não sorria mais, seus olhos começaram a brilhar, eu não conseguiria ficar ao lado dele se ele chorasse.
- eu amo você.
Ele disse entre lagrimas, e eu estava chocada demais para dizer qualquer coisa, ninguém nunca havia me dito que me amava depois da morte do meu pai, eu tive que piscar os olhos para conseguir não chorar. Mais apesar disso tudo eu sou uma garota forte, e me recompus rápido.
- eu fui alistado... Para a guerra... Eu tenho que me despedir das pessoas e queria te ver antes de você sabe... Ir.
Ele foi forte engoliu o choro e me olhou com se não fosse realmente me ver mais, como se tentasse salvar em sua mente cada pedaço meu, eu não sabia o que dizer.
Ele fora alistado, isso não era bom, a guerra a qual nosso pais enfrenta, já dura vinte e dois anos, ela começou quando o rei Lucio morreu, e seu filho príncipe Augusto foi coroado, nós nunca conhecemos o pais vizinho, acho sempre teve uma rivalidade entre Serenicia e Valecias, mas o motivo da guerra nunca foi revelado, e sempre que alguém e’ alistado e’ um sofrimento, pois a guerra não esta nem perto de acabar, e os soldados geralmente só voltam por estarem muito mutilados para lutar, ou como desertores, e a pena para o ultimo e’ a morte.
- quando você parte?
Pode parecer insensível da minha parte mais o que se diz para pessoas em uma situação como essa? Ainda mais quando essa pessoa e’ Vitor.
- Amanha de manha.
Ele disse finalmente me olhando nos olhos, então essa era realmente nossa ultima noite juntos.
- e você resolveu que tem que me contar um dia antes de ir?
Eu estava começando a ficar com raiva.
- eu não consegui contar antes...
Eu não deixei ele terminar.
- eu já estou terminando o ensino médio esse ano, se eu começar a faculdade de enfermagem ano que vem, em quatro anos estarei com você.
Essas palavras não tiveram o efeito que eu esperava, ele pereceu mais sofrido assim que elas saíram da minha boca.
- eu não posso fazer isso, não posso prometer estar vivo, não posso deixar você ir para a guerra por minha causa, não posso pensar em algo ruim acontecendo com você, eu só tenho forca o suficiente para ir porque eu sei que estarei impedindo os inimigos do rei de chegarem aqui e machucarem você e minha família, nos precisamos terminar.
Ele disse por fim, e eu sabia que não havia mais nada a ser dito. Mesmo que eu quisesse ficar e conversar mais, eu não conseguiria.
Levantei-me, beijei-o mesmo com as lagrimas esse parecia ter sido o melhor beijo da minha vida, eu não queria solta-lo, não queria deixa-lo partir e tudo foi dito nesse beijo, todas as palavras que eu nunca saberia como usar.
Corri pelas ruas praticamente desertas entrei pelo portão da escola e segui pela frente do prédio, sem nenhuma preocupação de alguém me encontrar, ele não veio atrás de mim, e uma pequena parte de mim, a parte que esperava que ele viesse me abraçasse e dissesse que tudo ia ficar bem, acabou de morrer.
Meus outros dias foram todos iguais, mas as pessoas começaram a ver que tinha alguma coisa erada comigo, eu andava calada, não saia à noite, não tinha mais humor para colorir a realidade pensando que tudo ficaria bem na minha vida, nada ficaria bem, Vitor levou minha esperança com ele. Tudo que eu sempre quis, foi alguém com quem dividir minha vida, já moro nessa escola há doze anos, desde os cinco anos, quando meu pai morreu, sempre me mantive otimista, pensando que um dia encontraria alguém, teria uma carreira, um motivo para viver. Quando conheci Vitor nem mesmo acreditei, lá estava ele, sentado sozinho em uma mesa do Cabeças e corpos, Maria estava junto comigo, nos duas costumávamos sair sozinhas quase sempre, isso foi antes de ela ter que voltar para a casa dos pais em Moura, “eu vou lá” eu disse e ela ficou vermelha de vergonha por mim, “não, talvez ele te veja e venha aqui” ela dizia, “e se ele não me ver?” eu disse, e ela não tinha nenhum argumento, então eu fui, e me apresentei, saímos juntos umas três vezes antes de começarmos a namorar.
Comecei a me focar nas aulas, antes eu queria ir para a guerra, agora eu preciso disso para viver.
As férias começaram e a maioria das garotas foi para casa, a vigilância depois do apagar das luzes diminuiu e eu pude voltar a dar minhas escapadas, não ia a nenhum bar como antes, mais dava longas caminhadas sozinha pela praia, andando descalço com a água da praia ate meus joelhos, e em uma das minhas caminhadas, quando eu me sentei em um dos bancos de areia para olhar para o oceano, eu vi alguém que boiava e afundava novamente bem perto da praia, joguei no chão o sorvete que eu segurava, tirei meus chinelos enquanto corria e me atirei na água  que estava gelada por já serem altas horas da noite, passei um braço por sobre a mulher, segurando seu tronco, ela estava desacordada, tirei-a da água e foi quando levei o maior susto da minha vida, a mulher que eu acabara de tirar da água não tinha pernas, ao invés disso ela tinha a metade inferior de um peixe, com escamas que brilhavam em azul refletindo a luz da lua, auscultei o coração, estava batendo, mais num ritmo fraco e descompassado, sua respiração também estava fraca, mais não considerei isso como um problema, pois à medida que ela ia se secando, as guelras em baixo do seu maxilar iam sumindo, e eu comecei a perceber que seu tronco ia se movimentando com um ritmo, ate que ela passou a respirar totalmente pelos pulmões, olhei para os lados em busca de alguém para me ajudar, mais não havia ninguém, a praia estava deserta, e comecei a perceber o porquê de o batimento cardíaco dela estar tão fraco, havia um corte de aproximadamente vinte e cinco centímetros no lado esquerdo de sua calda, eu não poderia deixar aquele ser tão esplêndido ali, ela iria morrer por hemorragia, e eu não sabia quanto sangue ela já havia perdido, sem pensar duas vezes eu puxei-a para o banco de areia onde estavam meus chinelos, tirei minha blusa e a usei para secar a cauda e depois quando a cauda havia se transformado em duas pernas eu usei minha blusa para estancar o sangue do ferimento, que parecia bem pior na perna humana. Depois de amarar firmemente minha blusa ao ferimento, eu ainda estava sozinha com ela na praia, ela não tinha mais cauda, mais estava vestida somente com uma blusa, se você algum dia já ouviu alguma historia sobre sereias e te contaram que quando seca sua cauda se transforma em pernas, acredite, mais se te contaram que ela se transforma em pernas vestidas, nem pense em acreditar. Sozinha na praia com uma sereia pelada ao meu lado e sem blusa, só me restava torcer para que ela acordasse, e para sairmos dali antes que alguém nos visse, e para minha alegria ela começou a acordar no meio de um delírio.
- eles já sabiam, foi uma emboscada.
Ela dizia com uma voz fraca.
Continuava a dizer enquanto eu a levantava e tentava colocar seu braço em volta do meu pescoço, para minha surpresa depois de se firmar em mim ela começou a andar, mesmo que arrastando a perna machucada.
Com muita dificuldade passamos as quatro ruas ate a escola sem sermos vistas, como não havia quase ninguém na escola e já era de madrugada, consegui leva-la ate meu quarto sem que as duas professoras que ficaram na escola nos vissem, na verdade eu acho bem provável que nenhuma das duas esteja aqui, já que um dia eu ia saindo de fininho quando avistei uma delas saindo também sorrateiramente do prédio.
Levei a sereia para o meu quarto e comecei a me preocupar com o ferimento em sua perna esquerda, deitei-a na minha cama, que era a debaixo, no beliche do lado direito, fui ate ao refeitório e entrei na cozinha, peguei uma bacia, alguns cubos de gelo, e alguns biscoitos caso ela acordasse totalmente, deixei as coisas no quarto e fui à busca de alguns remédios na enfermaria, mais ela estava trancada, então fui ate a sala onde tivemos a aula de curativos, não tinha muita coisa que poderia me ajudar, mas peguei algumas gazes, faixas, esparadrapos, soro fisiológico, remédio para febre eu tinha no meu dormitório.
Quando voltei ao quarto os gelos já haviam começado a derreter, embrulhei-os dentro de uma toalha e coloquei sobre sua testa, coloquei água na bacia e comecei a limpar o ferimento que estava pior que eu imaginava, não era um corte superficial e estava muito infeccionado, com pus escorrendo a medida que eu limpava, assim que acabei de limpar, dei a ela o remédio para a febre, ela bebeu sem dizer nada, na verdade ela já não falava nada desde uma rua antes de chegarmos a escola, limpei também com o soro, depois fiz o melhor que pude para tampar o ferimento com as gases e depois enfaixei, no outro dia teria muito trabalho a fazer, tinha certeza que o ferimento precisaria de pontos, ela precisaria de roupas e também de antibióticos, guardei as coisas e fui me deitar.

Um comentário:

  1. Maravilha Carolina !!!!!

    Antonio Cabral Filho
    http://letrastaquarenses.blogspot.com.br

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