VALENTINA E O JARDIM DE ORQUÍDEAS NEGRAS
“Do alto da colina eu podia ver,
quilômetros e mais quilômetros cobertos por orquídeas negras, as mais belas
flores que já havia visto em minha vida. No meio do jardim de orquídeas havia
um imenso monte, do que me pareciam diamantes ao olhar de longe. Desci a colina
me aproximei do outeiro e percebi que não eram diamantes, encostei minha mão,
parecia pedra solida e no mesmo instante o monte se mexeu, me jogando longe ao
abrir suas imensas asas...”.
Capitulo 1
Aqui
estou eu, indo encontrar Vitor, meu namorado, tenho certeza que ele ira
terminar comigo hoje, ele tem agido de um jeito estranho a mais ou menos um
mês, e ontem ele me ligou dizendo que precisava se encontrar hoje comigo no Cabeças
e corpos, o bar onde nos conhecemos.
Nesse
exato momento, Alice, Cecilia e Maria Clara, as meninas que dividem o quarto
comigo, me dão cobertura, para que ninguém descubra que eu sai da Escola para
meninas, a escola onde estudo.
Vitor
e eu já estamos nos vendo a mais ou menos um ano, mais ele não gosta muito de
só me ver poucas horas algumas vezes na semana, eu não posso me arriscar a sair
todo dia, pois existe um horário chamado Apagar das luzes, onde todas nos somos
obrigadas a nos retirar para nossos quarto. Assim que eu escutei o toque de
recolher, todas as luzes que ainda estavam acessas se apagaram, desci pelas
escadas já que todos usavam o elevador, tentando fazer o mínimo possível de
barulho, consegui sair do prédio sem ser notada, abri o portão principal, e
estou livre finalmente.
O
vento soprando meu cabelo castanho-claro e cacheado para cima, enquanto meu
vestido estava bem preso ao corpo pelo, sobretudo roxo abotoado e bem apertado pelo
cinto, meus tênis que um dia foram pretos, agora surrados e desbotados, se
movimentando em uma velocidade enorme.
Eu
não deveria ter a chave, mais cada dia alguém tem que buscar pão, leite e
frutas para o café da manha antes que as outras acordem, e numa das vezes que
eu tive que ir, eu tive uma ótima ideia, e fiz uma copia das chaves.
Depois de atravessar a praça principal, já
conseguia ver Vitor, me esperando em pé na frente do bar, com um sorriso meio
forçado, usava um jeans surrado, uma camisa verde que combina com os meus
lindos olhos e uma blusa de moletom de frio preta, os cabelos loiros arrepiados
pelo vento.
Eu
cheguei e o beijei na boca, certa de que esse seria nosso ultimo beijo, tive
que me aproveitar um pouquinho.
- já reservei uma mesa para nós.
Disse
ele ainda sustentando o sorriso forçado. Agora só me restava aproveitar a
bebida e esperar pelo golpe de misericórdia.
- então o que e que você tem
para me contar?
Ele
simplesmente não conseguia olhar nos meus olhos, e eu sabia que era agora ou
nunca, se ele não terminasse comigo agora, não faria nunca mais. Ele olhava
diretamente para minhas mãos enquanto falava, e eu comecei a perceber que isso
tudo era pior para ele do que para mim. Ele parecia bastante enjoado, como se
fosse vomitar a qualquer momento.
- eu vou buscar uma bebida no
bar o que você vai querer?
Eu
perguntei, abrindo meu sorriso mais confiante, mais ele parecia não estar me
ouvindo.
- espera...
Ele
disse, segurando meu braço. Nesse momento ele já não sorria mais, seus olhos
começaram a brilhar, eu não conseguiria ficar ao lado dele se ele chorasse.
- eu amo você.
Ele
disse entre lagrimas, e eu estava chocada demais para dizer qualquer coisa,
ninguém nunca havia me dito que me amava depois da morte do meu pai, eu tive
que piscar os olhos para conseguir não chorar. Mais apesar disso tudo eu sou
uma garota forte, e me recompus rápido.
- eu fui alistado... Para a
guerra... Eu tenho que me despedir das pessoas e queria te ver antes de você
sabe... Ir.
Ele
foi forte engoliu o choro e me olhou com se não fosse realmente me ver mais, como
se tentasse salvar em sua mente cada pedaço meu, eu não sabia o que dizer.
Ele
fora alistado, isso não era bom, a guerra a qual nosso pais enfrenta, já dura
vinte e dois anos, ela começou quando o rei Lucio morreu, e seu filho príncipe
Augusto foi coroado, nós nunca conhecemos o pais vizinho, acho sempre teve uma rivalidade
entre Serenicia e Valecias, mas o motivo da guerra nunca foi revelado, e sempre
que alguém e’ alistado e’ um sofrimento, pois a guerra não esta nem perto de
acabar, e os soldados geralmente só voltam por estarem muito mutilados para
lutar, ou como desertores, e a pena para o ultimo e’ a morte.
- quando você parte?
Pode
parecer insensível da minha parte mais o que se diz para pessoas em uma
situação como essa? Ainda mais quando essa pessoa e’ Vitor.
- Amanha de manha.
Ele
disse finalmente me olhando nos olhos, então essa era realmente nossa ultima
noite juntos.
- e você resolveu que tem que me
contar um dia antes de ir?
Eu
estava começando a ficar com raiva.
- eu não consegui contar antes...
Eu
não deixei ele terminar.
- eu já estou terminando o
ensino médio esse ano, se eu começar a faculdade de enfermagem ano que vem, em
quatro anos estarei com você.
Essas
palavras não tiveram o efeito que eu esperava, ele pereceu mais sofrido assim
que elas saíram da minha boca.
- eu não posso fazer isso, não
posso prometer estar vivo, não posso deixar você ir para a guerra por minha
causa, não posso pensar em algo ruim acontecendo com você, eu só tenho forca o
suficiente para ir porque eu sei que estarei impedindo os inimigos do rei de
chegarem aqui e machucarem você e minha família, nos precisamos terminar.
Ele
disse por fim, e eu sabia que não havia mais nada a ser dito. Mesmo que eu
quisesse ficar e conversar mais, eu não conseguiria.
Levantei-me,
beijei-o mesmo com as lagrimas esse parecia ter sido o melhor beijo da minha
vida, eu não queria solta-lo, não queria deixa-lo partir e tudo foi dito nesse
beijo, todas as palavras que eu nunca saberia como usar.
Corri
pelas ruas praticamente desertas entrei pelo portão da escola e segui pela
frente do prédio, sem nenhuma preocupação de alguém me encontrar, ele não veio
atrás de mim, e uma pequena parte de mim, a parte que esperava que ele viesse
me abraçasse e dissesse que tudo ia ficar bem, acabou de morrer.
Meus
outros dias foram todos iguais, mas as pessoas começaram a ver que tinha alguma
coisa erada comigo, eu andava calada, não saia à noite, não tinha mais humor
para colorir a realidade pensando que tudo ficaria bem na minha vida, nada
ficaria bem, Vitor levou minha esperança com ele. Tudo que eu sempre quis, foi
alguém com quem dividir minha vida, já moro nessa escola há doze anos, desde os
cinco anos, quando meu pai morreu, sempre me mantive otimista, pensando que um
dia encontraria alguém, teria uma carreira, um motivo para viver. Quando
conheci Vitor nem mesmo acreditei, lá estava ele, sentado sozinho em uma mesa
do Cabeças e corpos, Maria estava junto comigo, nos duas costumávamos sair
sozinhas quase sempre, isso foi antes de ela ter que voltar para a casa dos
pais em Moura, “eu vou lá” eu disse e ela ficou vermelha de vergonha por mim,
“não, talvez ele te veja e venha aqui” ela dizia, “e se ele não me ver?” eu
disse, e ela não tinha nenhum argumento, então eu fui, e me apresentei, saímos
juntos umas três vezes antes de começarmos a namorar.
Comecei
a me focar nas aulas, antes eu queria ir para a guerra, agora eu preciso disso
para viver.
As
férias começaram e a maioria das garotas foi para casa, a vigilância depois do
apagar das luzes diminuiu e eu pude voltar a dar minhas escapadas, não ia a
nenhum bar como antes, mais dava longas caminhadas sozinha pela praia, andando
descalço com a água da praia ate meus joelhos, e em uma das minhas caminhadas,
quando eu me sentei em um dos bancos de areia para olhar para o oceano, eu vi alguém
que boiava e afundava novamente bem perto da praia, joguei no chão o sorvete
que eu segurava, tirei meus chinelos enquanto corria e me atirei na água que
estava gelada por já serem altas horas da noite, passei um braço por sobre a
mulher, segurando seu tronco, ela estava desacordada, tirei-a da água e foi
quando levei o maior susto da minha vida, a mulher que eu acabara de tirar da água não tinha pernas, ao invés disso ela tinha a metade inferior de um peixe,
com escamas que brilhavam em azul refletindo a luz da lua, auscultei o coração,
estava batendo, mais num ritmo fraco e descompassado, sua respiração também
estava fraca, mais não considerei isso como um problema, pois à medida que ela
ia se secando, as guelras em baixo do seu maxilar iam sumindo, e eu comecei a
perceber que seu tronco ia se movimentando com um ritmo, ate que ela passou a
respirar totalmente pelos pulmões, olhei para os lados em busca de alguém para
me ajudar, mais não havia ninguém, a praia estava deserta, e comecei a perceber
o porquê de o batimento cardíaco dela estar tão fraco, havia um corte de
aproximadamente vinte e cinco centímetros no lado esquerdo de sua calda, eu não
poderia deixar aquele ser tão esplêndido ali, ela iria morrer por hemorragia, e
eu não sabia quanto sangue ela já havia perdido, sem pensar duas vezes eu
puxei-a para o banco de areia onde estavam meus chinelos, tirei minha blusa e a
usei para secar a cauda e depois quando a cauda havia se transformado em duas
pernas eu usei minha blusa para estancar o sangue do ferimento, que parecia bem
pior na perna humana. Depois de amarar firmemente minha blusa ao ferimento, eu
ainda estava sozinha com ela na praia, ela não tinha mais cauda, mais estava
vestida somente com uma blusa, se você algum dia já ouviu alguma historia sobre
sereias e te contaram que quando seca sua cauda se transforma em pernas,
acredite, mais se te contaram que ela se transforma em pernas vestidas, nem
pense em acreditar. Sozinha na praia com uma sereia pelada ao meu lado e sem blusa,
só me restava torcer para que ela acordasse, e para sairmos dali antes que
alguém nos visse, e para minha alegria ela começou a acordar no meio de um
delírio.
- eles já sabiam, foi uma
emboscada.
Ela
dizia com uma voz fraca.
Continuava
a dizer enquanto eu a levantava e tentava colocar seu braço em volta do meu
pescoço, para minha surpresa depois de se firmar em mim ela começou a andar,
mesmo que arrastando a perna machucada.
Com
muita dificuldade passamos as quatro ruas ate a escola sem sermos vistas, como
não havia quase ninguém na escola e já era de madrugada, consegui leva-la ate
meu quarto sem que as duas professoras que ficaram na escola nos vissem, na
verdade eu acho bem provável que nenhuma das duas esteja aqui, já que um dia eu
ia saindo de fininho quando avistei uma delas saindo também sorrateiramente do
prédio.
Levei
a sereia para o meu quarto e comecei a me preocupar com o ferimento em sua
perna esquerda, deitei-a na minha cama, que era a debaixo, no beliche do lado
direito, fui ate ao refeitório e entrei na cozinha, peguei uma bacia, alguns
cubos de gelo, e alguns biscoitos caso ela acordasse totalmente, deixei as
coisas no quarto e fui à busca de alguns remédios na enfermaria, mais ela
estava trancada, então fui ate a sala onde tivemos a aula de curativos, não
tinha muita coisa que poderia me ajudar, mas peguei algumas gazes, faixas,
esparadrapos, soro fisiológico, remédio para febre eu tinha no meu dormitório.
Quando
voltei ao quarto os gelos já haviam começado a derreter, embrulhei-os dentro de
uma toalha e coloquei sobre sua testa, coloquei água na bacia e comecei a
limpar o ferimento que estava pior que eu imaginava, não era um corte
superficial e estava muito infeccionado, com pus escorrendo a medida que eu
limpava, assim que acabei de limpar, dei a ela o remédio para a febre, ela
bebeu sem dizer nada, na verdade ela já não falava nada desde uma rua antes de
chegarmos a escola, limpei também com o soro, depois fiz o melhor que pude para
tampar o ferimento com as gases e depois enfaixei, no outro dia teria muito
trabalho a fazer, tinha certeza que o ferimento precisaria de pontos, ela
precisaria de roupas e também de antibióticos, guardei as coisas e fui me
deitar.
Maravilha Carolina !!!!!
ResponderExcluirAntonio Cabral Filho
http://letrastaquarenses.blogspot.com.br